quarta-feira, 14 de julho de 2010

Outro roubo...

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.

É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.



Jorge de Sena (um português que sorveu a brasilinidade tão deliciosamente exposta neste poema..)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Eu, Feiticeira, me confesso ladra... mas apenas de textos que me espelham...



(Também)
SOU EU

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,

Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.


Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.


Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ...


As maravilhosas poções de Álvaro de Campos...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Voltei à fase dos poemas, hinos à sensibilidade...

Nas minhas incursões noturnas pela internet descobri, ontem, este poema do saudoso Eugénio de Andrade.

Tocada, rendida e maravilhada "furteio-o" da sua sede e trouxe-o até ao meu canto... estarei perdoada? ...

"Apenas um corpo

Respira. Um corpo horizontal,
Tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
Respira, ondula, infatigável.

Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.

Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.

Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado."


Fabuloso, não é?... "um novo corpo nasce debaixo do meu corpo desvelado"...

Um sorriso apenas ...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Desejos... (não encontrei título melhor, mas aceito sugestões)


Apeteceu-me este texto depois de uma conversa de fim de tarde e inspirada por este maravilhoso e delicioso nu da Tamara Lempicka, “Adão e Eva”.


… O que mais me seduz é a sedução na certeza de que os desejos nela implícitos são inconcretizaveis de imediato.
O que se vê na essência de um desejo, pelo menos naquele dito físico, sexual, é a possibilidade de satisfação imediata, no minuto ou na hora seguinte. Um olhar que despe antecipa o momento desejado de possuir um corpo nu.
O sentir o desejo provocado num homem e saber que ele nada pode fazer, falar ou tocar, dá poder e aumenta a excitação. Provocar o desejável no impossível, é maquiavelicamente excitante, e, pelo que li, enquadra-se na prática tântrica do sexo.

Pergunta-me ela, neste ponto da conversa,: “então para ti o que é um momento perfeito de sedução?”
“Simples … dizer a um homem com toda a minha linguagem corporal que quero que ele me faça dele, ele dizer-me, nos mesmos sinais, que me deseja e eu mostrar-lhe que é impossível… ali, naquele momento. Adiar a concretização de um desejo é ter poder. E isso, francamente, é libidinoso”. Mereci um comentário estranho: “os trinta anos apimentaram-te, amiga!”…

Não sei se é fiel à verdade o comentário desta minha querida confidente, mas, na verdade, a sexualidade é a parte lúdica da vida. Não que a encare como piada ou entretenimento, longe disso (aliás odeio piadinhas de cama e na cama!) mas sim como um jogo. Entusiasmamo-nos na novidade de cada patamar, mas uma vez obtida a vitória estamos sempre ávidos das armadilhas e truques que nos reserva o patamar seguinte…

Uma vez, dancei para um homem deslumbrante numa discoteca muito em voga.
Foi uma saída de grupo. Nessas saídas a parte glamourosa do grupo (entenda-se, as mulheres) iam dançar enquanto a parte séria e pé de chumbo (entenda-se, os homens) iam para junto do bar conversar ou beber, ou fumar, ou sei lá o quê (provavelmente dar azo às seduções natas que também neles reside). A música era um feitiço. Quando esta me prende eu transformo-me e entrego o corpo aos sons, à energia, à vida e esqueço-me das regras, do “dançar com regras”… Sou assim porque me acho feliz na plenitude das sensações e a música, definitivamente, liberta-me! Naquele estado de voluntária e desejada alienação apercebi-me de um homem na pista. Distinguia-se pela forma física, pela roupa discreta mas criteriosamente escolhida tão discreta tanto quanto os movimentos que imprimia ao corpo contrariando a agitação imposta pelos sons latinos da música. Eu, como sempre, estava rendida à música. Mas fitei-o. Ele sorriu-me. Há mensagens decifráveis sem margem para dúvidas. Ele desejou-me. E eu, apeteceu-me. Não esbocei um único sorriso indutor de qualquer convite, mas fiz-lhe perceber que dançava para ele. E ele sedutoramente não saiu do seu lugar, como se tivesse percebido que detesto que precipitem os momentos e, sobretudo, que me dêem por adquirida nas vontades e nas atitudes. Distantes e indómitos nos intentos. Eu dançava, ele via. Eu fitava-o, ele seguia-me nas formas, nos movimentos sem afastar o olhar.
No momento exacto em que se impunha a aproximação, apareceram na pista os homens do grupo e, entre eles, o um amigo que era o menos pé de chumbo. Instintivamente puxei-o a mim e dei a entender que seria meu nnmorado enquanto a mão passeava pelo outro lado do pescoço e descendo pelo peito, serpenteando as costas, chegou ao rabo. Não tirei os olhos do meu observador.
E, pela primeira vez, sorri-lhe, impossibilitando-lhe assim o desejo que lhe provoquei...

Feitiços desejados...

terça-feira, 8 de junho de 2010

A propósito de uma citação perdida algures no mundo “googleano”…

"Eu aprendi com a primavera a me deixar cortar e voltar sempre inteira"

Cecília Meireles

Quando li esta maravilha senti-me arrebatada por um snrtimento de afinidade, de pertença, numa espécie de irmandade de emoções.

Depois de podada, cortada, espontada, ferida, decepada, a flor brotará sempre e inteiramente mais linda e forte!

Assim me sinto: uma mulher forte, inteira e, obviamente, linda!

Depois de em tanto acreditar e, por isso, me dedicar em jeitos de romances bucólicos ou filme de fazer chorar a calçada, decidi que o último corte deveria servir para me dar um novo porte, uma nova forma, uma inabalável força para enfrentar um aspecto importante da minha vida: os afectos e as relações ou, mais concretamente, os homens da minha futura vida.

Daqui a fazer uma declaração de princípios foi um passo novo (até mesmo radical!) mas, nem por isso, menos intrépido!

Assim, declaro o seguinte:

Fim do romantismo e bla bla bla de filmes. Uma relação é um processo de aprendizagem em fase da faculdade e como nunca fiz flores e corações nos apontamentos de Direito Fiscal terei que, neste contexto, estudar muito bem as deduções à colecta a fim de obter um bom reembolso.

Foi o quanto me apeteceu escrever neste momento ainda que esteja ciente de que comecei com uma belissíma citação e terminei com um pensamento de almanaque!

Sorrisos com um travo de doce veneno

quarta-feira, 26 de maio de 2010

... momentos...

"""

Esperei-te na ânsia dos ventos teus que envidam a embarcação das emoções minhas, mas nem uma brisa senti...



No teu silêncio desoriento-me sem saber como poder atracar em ti... Sim!! Atracar, em todo o sentido figurado da palavra ...
Atracar as emoções, enlaçando-te o corpo qual corda, âncorando-te a voz com sussurros prometidos, flutuando-te nos toques que adivinham entregas, permanecendo-te nos cheiros conhecidos mas ávidos de novas inspirações...

Sopra-me....

"""

terça-feira, 25 de maio de 2010

...


... Ontem refugiei-me no meu local predilecto: frente ao Mar...

É verdade que não é qualquer Mar que me acalma mas apenas o Mar destas praias do Norte...

Negro, velho, cansado na teimosia do desgaste dos austeros penedos, sinto-lhe sabedoria e maturidade para ser meu confidente destes meus estados nostálgicos. A alma só é revelada (ainda que efemeramente) a confidentes eternamente silenciosos...

No enleio da maresia e das danças das gaivotas, já quase enrolada no movimento das ondinhas de maré baixa, ouvi-me, encontrei-te e dei-nos asas...